COMUNIDADE
"Viajante, sê meu amigo." Comunidade N.E.
“Devíamos estar juntos”, é o impulso feito pensamento que me chega nestes tempos em que a batalha desceu ao plano físico e à esfera pública. No sabemos,não sei, que guerrilhas, guerras civis ou outras nos esperam nos tempos mais próximos. È fácil visualizar como tudo isto fermentava e intoxicava os bastidores do visível, como um confronto pela alma humana e pelo planeta crescia nas várias tramas distópicas em que vínhamos sufocando, particularmente nos últimos anos. Subitamente, a bolha rebenta à nossa frente, e rebenta através de posicionamentos éticos face à hipocrisia colectiva. De repente, as várias fragmentações sociais alimentadas pelos algoritmos e pelas diversas metolodologias de dissensão, perdem poder face à evidência de que precisamos, em conjunto e em cooperação, de recuperar a nossa humanidade e que nela cabe a maior parte das nossas diferenças.
Há em mim um lado que entra em erupção por si mesmo, e ao arrepio de possibilidades efectivas ou realistas, que diz “devíamos estar juntos”. Devíamos estar juntos, em comunidade. Queria os queridos todos juntos, queria proteger todos ou que todos se protegessem mutuamente. Imagino que plantamos, jardinamos e cuidamos das coisas puras, vivas e autênticas. Imagino que estudamos, que nos dedicamos intensamente à alimentação da luz de cada um e da chama colectiva. Imagino que somos uma lanterna alta, e sinto uma profundíssima saudade de habitar nessa comunidade-farol. A “solução beneditina”a que se referia McGilchrist, creio, algures. Ouve-se bem o toque a reunir. Não consigo pensar nessa pertença a alguma comunidade como algo utilitário. Embora nos proteja, ela não serve para nos proteger. Encontro pelas redes sociais imensas publicações mais ou menos hippies de pessoas que estão em trânsito ou mesmo querem mudar de vida e juntar-se a ou criar uma comunidade. Fico sempre dividida entre considerar o que será que aquelas pessoas conseguiram em que eu falho, e a realização de que não quero nada daquilo.
Ou seja, na Comunidade estamos protegidos, mas ela não serve para nos proteger. Na Comunidade cooperamos, mas ela não serve para descartarmos os nossos pesos, nem se organiza em torno das nossas vidas ou especiais necessidades individuais. A Comunidade é um conceito espiritual e humanista, que, por ser mais amplo, dará inerentemente de beber ao mais limitado - abastecerá os nossos “reservatórios” pessoais - mas que não se centra neles nem os serve. Por isso, a Comunidade não tem uma base utilitária nem funcional. Rege-se po valores, mas eles não são suficientes por si sós, antes se subordinam aos valores maiores do afecto e do Amor. Por fim, as Comunidades não se estabelecem por decreto - como aliás nenhum sacramento - , mas pelo acender de uma fagulha, de um fogo que já existe. A Comunidade é um farol e quer sê-lo. A Comunidade é um sacramento do futuro.
Talvez a Comunidade e a luz do seu farol estejam dispersas na teia luminosa de cooperação humana da qual precisamos de tornar-nos conscientes nesse momento. Whitman falava da “Cidade dos Amigos”. Este nosso reino do Espírito Santo é aquele que alastra pelas ruas quando nos defendemos recíprocamente, quando nos protegemos e à nossa humanidade. Talvez a Comunidade se constitua quando nos focamos no essencial, na necessidade de actuarmos pelo Bem Comum. A Comunidade é a afirmação vivida da Fraternidade. Por que estrela se alinham “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” , e como poderemos usar o momento para corrigir a nossa rota?
Eis, por fim, como saúde mental e espiritualidade também estão associadas: a pertença, o sentido, a elevação dos actos, são os maiores factores de protecção perante as investidas distópicas.
Nós somos o corpo da Comunidade.
Devíamos estar juntos…


